O PENSADOR

O PENSADOR
RODIN

domingo, 18 de janeiro de 2015

A INDOLÊNCIA DA MENTE



A mente é extremamente indolente. Nunca procura atingir os seus limites. É acomodatícia, tal como os órgãos da visão.




O HOMEM É O SEXO FRACO




Os homens são o sexo fraco. Mais dependentes do que as mulheres, só abandonam um amor ou um casamento quando têm um novo leito que os acolha.




QUEM SABE NÃO FALA



Quem sabe não fala.
Quem sabe algo, pouco fala.
Quem nada sabe, é verborreico e nada diz.




CEGUEIRA E SURDEZ MENTAL



Pior do que a cegueira física é a cegueira mental.
Pior do que a surdez física é a surdez mental.




FREUD, ADLER E JUNG - O AUTOCONHECIMENTO




Freud, na 1ª tópica, elaborou a doutrina de que a comunicação entre o inconsciente e o pré-consciente/consciente é regulada pela censura, geradora do mecanismo do recalcamento.
Estava convencido de que a tomada de consciência pelo paciente da sua neurose o libertaria dos sintomas nefastos. Mas pela análise do caso de Anna O. entendeu que não era efectivamente assim.

Na 2ª tópica, identificou o id - domínio das pulsões que funciona segundo o princípio do prazer –, o ego – regulador do conflito entre as pulsões e as exigências do mundo exterior, realizada através dos mecanismos de defesa e funcionando segundo o princípio da realidade – e o superego – formado pela interiorização das interdições e proibições impostas pela realidade exterior ao indivíduo. 
Entendeu que a cura só pode ser promovida, caso o paciente reviva e resolva o conflito que foi anteriormente mal resolvido, o que é conseguido pela livre associação de ideias e pela transferência do problema para o terapeuta – o paciente revive as situações desfavoráveis e transfere-as para o psicanalista, e não para os entes ou circunstâncias causadoras da perturbação efectiva.

Jung, discípulo de Freud, rejeitou a teoria deste, da origem sexual das neuroses, interpretando a libido como energia vital geral e não apenas sexual.
Na sua perspectiva, o inconsciente colectivo – os famosos arquétipos –, articulando-se com o consciente e o inconsciente individual, estruturam a personalidade do indivíduo.

Já Adler, que também foi discípulo de Freud, se afastou da sua teorização, dando prevalência aos complexos de inferioridade – na maior parte das vezes de natureza inconsciente –, de que todos padecemos e que são causados por situações de inferioridade física ou mental.
Serão estes a causa directa do desenvolvimento da personalidade numa determinada direcção, tendo em consideração um processo de compensação mais ou menos complexo.


***


As teorizações sobre a personalidade do ser humano e da origem do seu padecimento psicológico, são manifestamente insuficientes, limitadas e praticamente inúteis. Mesmo complementando-as num sincretismo produtivo, os resultados são insatisfatórios.
O autoconhecimento para além de não ter fim, não pode em caso algum ser sistematizado.





O QUE É QUE QUERES EM TROCA?



Questiona-te quando fazes uma doação.
Afinal, o que é que queres receber em troca?




ROMA EM CHAMAS



A nossa vida assemelha-se à cidade de Roma em chamas. Não fomos nós que a incendiámos, mas somos nós que ardemos.




SOMOS AMBICIOSOS, CIUMENTOS, VAIDOSOS, INVEJOSOS, HIPÓCRITAS E ORGULHOSOS




É um facto de que somos ambiciosos, ciumentos, vaidosos, invejosos, hipócritas e orgulhosos.
Será que se assim não fosse, nada de grandioso teria sido feito no que chamamos “civilização”, vivendo ainda os homens como pastores ou agricultores pré-históricos?
Talvez Kant tenha razão. Mas, antes pastor num mundo sem vícios, sem criminosos da humanidade e de delito comum, corruptos, ladrões e oportunistas, do que “homem civilizado”, num mundo miserável a cujos males todos fechamos os olhos, cúmplices de um número incomensurável de atrocidades, e que de grandioso nada tem.
Se é o mal o ventre gestante do progresso, então, deste, fica explicada a sua dúbia natureza. 
Se nada de grande foi realizado no mundo sem paixão (Hegel), não deveremos questionar-nos em primeiro lugar quanto à natureza do que é grandioso? Podemos estar a constatar grandiosas deformidades morais ou verdadeiras monstruosidades. Somos nós que construímos a história. Mas que história é esta? A do mal que se converte em bem, do mal, puro e simples ou de um mal hipoteticamente sem validade própria?




A SUPERSTIÇÃO - A ARMA DO HOMEM DO SÉCULO XXI



Estamos obcecados pelo mal no mundo e pelo que nos atinge. Não havendo forma de o exorcizar, pela constatação da fraqueza dos deuses, o ser humano recorre cada vez mais às artes divinatórias, às bruxas e bruxos do século XXI. Portador de crédula racionalidade a raiar os limites da irracionalidade, o homem é um ente pré-histórico revestido de novas tecnologias, um estulto que usa como arma de arremesso contra a angústia existencial e contra o desespero, a superstição.




O DUALISMO MANIQUEÍSTA



Não podendo exterminar o mal, a sociedade contemporânea, ignorante e supersticiosa, fez renascer Satanás. Adere cegamente ao que Santo Agostinho renunciou há séculos: o dualismo maniqueísta.




O TIPO DE AMOR QUE CULTIVAMOS É O ALAMBIQUE DO ÓDIO



O tipo de amor que cultivamos é o alambique do ódio.




DUVIDAI DE TUDO, MESMO DE MIM, ESPECIALMENTE DE MIM



Na vida vigora a dúvida.
Duvidai sempre de tudo, mesmo de mim, especialmente de mim.




O MOMENTO E A SERENIDADE



Quando nos dedicamos a viver o momento, a serenidade inunda-nos.




DA METAFÍSICA - DE DEUS E DA ALMA




Em filosofia, ou melhor, na vida, todo o problema independentemente da sua maior ou menor complexidade, deve ser abordado sem quaisquer condicionamentos, crenças ou ideologias. Quando nos libertamos das influências religiosas, filosóficas, das inúmeras impressões residuais da nossa mente, para além de nos vermos tal qual somos, temos a objectividade necessária para a sua resolução, avaliando os factos de modo imparcial, sem a contaminação de uma visão nocivamente interpretativa. A maioria dos filósofos, que negaram por via da razão a existência de um Deus particular, não conseguiram alhear-se dos seus condicionamentos da infância – v.g. Descartes e o próprio Kant. 

Os filósofos, por intermédio da especulação, podem “criar” ou “matar” deuses. São crianças cultas inventando conceitos de segurança para os seus medos e para os medos, inquietações e sensação de impermanência das sociedades a que pertencem. 
O intelecto é insignificante por ter a sua actividade limitada pelo espaço-tempo. Assim, todas as filosofias estão limitadas pelos ferozes condicionamentos daquele e as investigações surgem como consequência do seu engenho desenvolvido ao longo dos séculos.

Quando não “possuímos” – e em contrapartida não somos possuídos – sistemas filosóficos, religiões com os seus deuses e dogmas, superstições, pessoas e coisas, estamos preparados para ingressar sem esforço na Terra da Verdade. Esta Verdade não é estática e como tal não pode ser definida, enclausurada numa qualquer fórmula limitativa. Não permite o acumular de conhecimentos, tendo de ser percepcionada em cada instante, da mesma forma que o deve ser a beleza de um rosto, de um vale serpenteado por rio de águas cristalinas, das nuvens, de uma magnífica aurora.

Conhecemos o que nos é exterior pela experiência. Mal ou bem, conhecemos o mundo e uma parte da nossa mente.
Pergunto: pode o conhecido atingir o desconhecido? há alguma experiência que nos possa conduzir à “terra de ninguém”, à Verdade, ao incognoscível?
Se a mente percebe a sua incapacidade para atingir Deus, cessa a busca, e com este abandono, pacifica-se, silencia, e talvez por intermédio do silêncio pacificador, possa intuitivamente aceder ao conhecimento instantâneo. 

Precisamos de aniquilar os mecanismos de defesa psicológica. A liberdade só poderá existir em toda a sua plenitude, quando o nosso cérebro estiver integralmente despojado de dependências obnubiladoras, tais como as religiões organizadas e os seus deuses, puras invenções de mentes atormentadas. Estas maleitas, fortemente arreigadas nos alicerces profundos do cérebro, não podem ser esconjuradas por filósofos, teólogos, gurus, e outros repugnantes vendilhões da felicidade. Apenas nós as podemos destruir por intermédio da observação compreensiva. Por outro lado, se a vontade e os múltiplos anseios, desejos e apegos desaparecem naturalmente, nasce no homem uma energia indescritível e incomensurável.

A vida deve ser considerada como um todo, e não observada parcelarmente, já que é um fenómeno eivado de anarquia. Pela parte pretendemos atingir o Todo, partindo do conhecido almejamos o desconhecido. Quão tolos somos!
Habituámo-nos a ver apenas o que nos rodeia, objectos e pessoas que nos circundam. No entanto, precisamos de penetrar no infinito – no que não tem começo nem fim –, estender a nossa visão para além de todos os limites que conhecemos, independentemente da sua inacessibilidade ao pensamento.

Uma vida sem autoconhecimento e sem a pura observação de tudo o que nos rodeia, é um desperdício, e como tal não merece ser vivida. 
Porque é que transformamos as experiências dos outros em nossas? O que é que nos leva a sublimar ou ignorar as nossas próprias vivências? 
O espírito acomodatício não quer encarar os factos, em especial os que nos são desagradáveis ou que não respondem às nossas inquietações. Mas, a experiência de outrem, é uma experiência que não é própria, fazendo com que o ser humano que a perfilha, não seja mais do que um cidadão de 2ª, homem vestido de penas, tal papagaio.

Olhamos o Universo na sua imensidão, a vastidão do espaço com uma aparente infinitude de astros e sentimos intensamente a nossa efemeridade. É indubitavelmente esse sentimento de impermanência, tão inquietante quanto angustiante, que nos levou a buscar algo, que esteja para além do nascimento e da morte e que possa connosco “negociar” a imortalidade.
Dizer que o Universo não é o produto de um acidente, mas antes de uma Realidade absolutamente consciente, sábia e boa, é negar todo um conjunto de factos, e os factos são indesmentíveis – que se apresentam ao nossos sentidos. Já o estabelecimento de uma relação com essa Realidade transcendente, capaz de nos transfigurar, é pressuposto que apenas no mais íntimo da individualidade poderá obter resposta. Não há fórmulas mágicas, credos, procedimentos mortificantes, que a proporcionem e expliquem.

O homem deseja o prazer; é algo de primário. Os desejos são múltiplos, pertencendo uns à cidade terrena outros à cidade de deus. Não obstante sejam muitas as distracções do homem, com os seus consequentes desejos, o maior e o mais inatingível é o de Deus, estando associado à aspiração da imortalidade. Se a essência do Todo for a infinitude e a eternidade, podemos estar certos que o pensamento nunca a atingirá, por via das suas naturais limitações.

Tem de ser cada um de nós, por si, sem recurso a dogmas, crenças, sistemas filosóficos ou auxiliados pela teologia – seja a dogmática, seja a natural –, que deve descobrir se Deus tem uma verdadeira existência ou se é um fantasma elaborado por um pensamento tortuoso, a quem todas as ilusões são concedidas de molde a minimizar o sofrimento psicológico pela fuga da realidade, do que realmente é.
Tem de ser cada um de nós, que deve descobrir se existe uma alma e o que é a morte, essa realidade fantástica que tanto nos atormenta e aniquila a beleza da vida.
As Igrejas com a sua horda de sacerdotes ineptos não têm qualquer valor, para além de permitirem ao miserável homem comum uma frágil e ilusória segurança.

Não sabemos se Deus e a alma existem. Desconhecemos o que é a morte. Independentemente das inúmeras respostas de filósofos e teólogos alicerçadas na razão, na fé ou em ambas, nada conseguimos atingir ou o que atingimos está à partida condicionado pelas impressões residuais acumuladas na mente humana durante milénios e na nossa em especial, durante toda a nossa vida. São em regra, respostas programadas, quer ao nível consciente quer inconsciente. Não poderia ser de outra forma. O pensamento é um exímio prestidigitador, um ilusionista que se engana a si mesmo quando pretende transcender o espaço-tempo na inglória tentativa de compreender o que é permanente, e como tal, não pertence à natureza do impermanente. O pensamento só compreende – quando compreende – realidades limitadas, não as que excedem limites inultrapassáveis. Em boa verdade, toda a actividade do cérebro, padece das mesmas limitações deste: as do espaço e do tempo. Ora, o que é limitado, não tem acesso ao ilimitado, à eternidade e à infinitude.
Podemos então, confiar no pensamento? Julgo que não! Por muito elaborado, lógico, coerente e profundo que seja o pensamento, isso não fará com que a superficialidade e a inconsistência reinem no seu seio. A Verdade é uma terra sem dono, terra de ninguém, trilho não delineado, inatingível por qualquer doutrina, sistema filosófico, especulação ou religião. A Verdade não jorra nos corações dos que a perseguem com incessante ansiedade, porque é contrária à ambição, a todas as ambições, mesmo à ambição que apenas se tem a si como objecto.

A sabedoria é a constatação da nossa ignorância, da incognoscibilidade das questões metafísicas e da sua inevitável aceitação.
Muitas das vezes, os que aparentam sabedoria são tão insensatos como crianças, jogando às escondidas ou “reinando”,
Em bom rigor, a sabedoria entendida como conhecimento, tem muito pouco valor. Apenas quando reconhecemos a nossa ignorância, como o fez Sócrates, terá alguma valia.

A minha metafísica, resume-se grosso modo, a um simples “não sei”. Não conheço expressão mais fácil e real. Se não sei e não procuro, talvez venha a conhecer, talvez encontre, melhor, talvez venha eu mesmo a ser encontrado. É esta a humildade que permite transcender o espaço-tempo. 
Deus não pode ser definido. Manter-se-á para todo o sempre como o que é incognoscível. E se por um mero acaso, eu tiver alguma experiência de aproximação à sua existência e essência, essa experiência será unicamente minha e praticamente incomunicável, e terá nascido da morte do pensamento.

Ao problema da existência de Deus, conceito que remonta aos primórdios da humanidade, referem-se os filósofos a uma entidade suprema, que se identifica com uma existência absoluta, que se satisfaz a si mesma subsistindo por si, que cria e é livre no acto da criação. Poderá este deus dos filósofos, ser também o deus de uma determinada religião? Em consonância com os nossos condicionamentos, que como tal pouco mais são do que pura ficção, poderemos responder afirmativa ou negativamente, mas sempre de modo dúbio e incerto.
Filósofos, aspirantes a santos, místicos de práticas torturantes, afadigam-se na procura de um Deus que lhes escapa e que se lhes nega, não obstante se iludam com certezas e visões que têm a medida das suas expectativas. Não estão libertos do medo. Se o homem não estiver acorrentado pelo medo procurará Deus?  
O deus das religiões, dos teólogos, dos filósofos, dos livros “sagrados”, não é Deus, antes uma mera ilusão, ainda que agasalhadora e assombrosa. Se o conceito e a crença não existissem, estaríamos limitados à alegria e à tristeza, mas logo o inventaríamos para protecção dos nossos medos angustiantes. 

Na fé, pode existir uma verdadeira “cegueira filosófica”, uma fé sem qualquer alicerce, construída nas nuvens que são arrastadas por ventos que mudam constantemente de direcção. Esta, não é de todo razoável, mas antes acto irracional e cómodo. Apesar de tudo, no Concílio Vaticano I, foi frontalmente atacado o fideísmo, afirmando-se a plena capacidade da razão para demonstrar a existência de Deus, mais do que atestar por uma mera razoabilidade o acto de fé subjectivo.

A criação dos nossos deuses em nada diminuiu o sofrimento do ser humano, excepcionados alguns espíritos raros – normalmente apelidados de místicos – que, como consequência de patologia mental ou de uma realidade que nos transcende – e para sempre transcenderá – se acercaram do Absoluto, comungando da sua essência ou deram assentimento à sua existência. 

Confiai em Deus, dizem-vos. Mas que confiança e amor podeis ter num Ser que permite atrocidades constantes, a miséria, a fome, a morte por carência dos mínimos cuidados de saúde, os cataclismos que engolem tantos inocentes de modo indiscriminado, a guerra, afinal todo um conjunto de males e injustiças? Não teremos de concordar com Epicuro, quando afirma que “a divindade ou quer suprimir os males e não pode, ou pode e não quer, ou não quer nem pode, ou quer e pode. Se quer e não pode é impotente; e a divindade não o pode ser. Se pode e não quer, é invejosa, e a divindade não o pode ser. Se não quer e não pode, é invejosa e impotente, portanto não é divindade. Se quer e pode (que é a única coisa que lhe é conforme) donde vem a existência dos males e porque não os elimina?”
Como diz na sua simplicidade uma velhinha da minha aldeia, que Deus é esse, omnipotente e omnisciente, que permite que uma criança seja torturada, violentada e morta por um qualquer criminoso, assistindo impávido e sereno a um acontecimento a que qualquer um de nós obstaria se possível, mesmo com o risco da própria vida. Lembro-vos o “tratamento” a que os pedófilos são sujeitos pelos outros reclusos... e são apenas outros criminosos.

Invocamos Deus e o seu santo nome para nossa protecção – como um antibiótico para uma infecção –, para que vejamos os nossos desejos realizados e os males afastados. E para além deste, há os santos, santos para todos os fins, e uma Virgem Maria que parece ser mais poderosa do que o próprio Ser supremo, tantas vezes relegado para um plano inferior.

Diz-se que o mundo que perdeu o Deus cristão só pode assemelhar-se ao mundo que ainda não o encontrou. Mas se o Deus único nunca foi encontrado pelo mundo, que poderá este perder?
Mesmo que se considere que o Absoluto é atingível pela experiência mística, dir-se-á que esta é pessoal e intransmissível, inexistindo palavras que a possam cabalmente explicar ou divulgar.

Alguns filósofos tendem a crer na existência de Deus em virtude de não conceberem um Universo apoiado numa realidade pessoal. Poderá o cosmos ser fruto de lei, acaso ou vontade inconsciente? A tal questão respondem pela negativa. O Universo foi criado intencionalmente, com sabedoria e bondade, elevadas ao seu mais alto grau. Mas, tal afirmação não tem correspondência factual.

O deus dos filósofos é o deus da razão, da geometria, dos que reduzem a vida ao raciocínio, sendo como afirma Kolakowski um deus dos fracassos. Um deus dos fracassos e dos fracassados não pode obviamente ser religioso.

Não é o pensamento que ascende ao Absoluto, mas é o Absoluto que atinge a mente vazia.
Só um cérebro, que sem motivo foi esvaziado do seu conteúdo – daquilo que o condiciona –, e que nada busca, poderá ter acesso ao que é Eterno e Infinito. Este Ser, poderosa fonte de energia sem forma nem qualidade é inatingível na sua essência. O Absoluto – ou seja lá o que for – só surgirá por sua livre vontade, espontaneamente, nunca por via das nossas mesquinhas exigências, preces, invocações, ou na pior das hipóteses por práticas “religiosas” mortificantes. 

A alma, princípio de vida e princípio de inspiração moral, não pode ser investigada como problema religioso, independentemente dos problemas da imortalidade e de Deus.
Filósofos e teólogos procuraram desde sempre isolar duas substâncias diversas, mas bem definidas, no homem. Por um lado, a alma, que a partir do momento da sua criação subsistiria por todo o tempo futuro, ou seja, eternamente, e o corpo, sujeito à corrupção – mas que no caso do cristianismo ressuscitaria como corpo glorioso

Se existir uma alma que sobreviva ao corpo, somos forçados a admitir, que essa alma impregnada das vivências, emoções, conhecimentos e memórias do seu portador, manifestar-se-á com todo o seu conteúdo numa nova “vida”. É a continuidade do “eu”, essa entidade tão sofrida e insignificante. Improvável, quase absurdo. As nossas memórias estão intimamente dependentes do cérebro, que está destinado com o corpo à extinção.

Quando o nosso discurso tem como objecto a alma, em regra, estamos no domínio do pensamento. Pensamento que é a fonte do medo, de todos os medos, e em especial do mais poderoso, o medo da morte. É o pensamento que elabora doutrinas ou que se limita a afirmar com cega fé, em atitude de “santa burrice”, a existência da alma, uma alma que é permanente, que não está destinada à corrupção e que viverá com deleite os eternos prazeres dos céus.

Temos uma premente necessidade de acreditar na “vida” depois da morte, porque temos medo e nos sentimos inseguros. Estamos demasiadamente preocupados com a continuidade. Não queremos deixar de ser quem somos, nem deixar de possuir o que possuímos.

Poderá a imortalidade ser a continuação do “eu”? Estranha vontade esta que nega a destruição do que é misérrimo, mesquinho e escabroso. O imortal não tem qualquer afinidade com o mortal.
Que eu morra e renasça a cada instante. Só essa atitude é absolutamente religiosa e a santidade é a observação continuada de nós mesmos e do que nos rodeia, o que faz cessar o tempo com a consequente imersão na eternidade.




UM ÓPTIMO DIA PARA MORRER



Se eu hoje tivesse atingido a Verdade, poderia morrer serenamente ao crepúsculo.
Seria um óptimo dia para morrer!




SOCIEDADE DE APARÊNCIAS



Sociedade de aparências. Carro topo de gama, casa luxuosa, peixe para o gato e carne para o cão, em casa onde os não há.




NÃO HÁ INTERIOR SEM EXTERIOR NEM EXTERIOR SEM INTERIOR



Não te atenhas única e exclusivamente às coisas exteriores nem às interiores. Une-as na perfeição do caminho intermédio, porque não há interior sem exterior nem exterior sem interior.




A SUPRESSÃO DO DESEJO



Epicteto aconselhava a supressão absoluta do desejo, na precisa ocasião em que por ele sejamos acometidos. Mas, o desejo não pode ser suprimido sem mais. É erro querer fazer com que cesse ou desapareça. Escutemo-lo apenas. A escuta passiva irá dissipá-lo.




A NINGUÉM É POSSÍVEL CONTENTAR DEUS E O DIABO



Devemos agir em conformidade com a nossa consciência e não nos atermos à opinião dos outros com o reprovável intuito de agradar. Lembremo-nos que Deus que é Deus, não agrada a todos os homens, e que a ninguém é possível contentar Deus e o Diabo.




A TÁBUA RASA




Em filosofia, de quando em vez, surgem pensadores que intentam fazer tábua rasa de tudo o que conhecemos. São considerados heróis e sê-lo-iam não fora o seu condicionamento psicológico, alimentado na própria gestação e a partir da infância. 
Em bom rigor, é imperativo que caminhemos sós num trilho sem fins e objectivos, porque muito erra, mais do que o ignorante, aquele que julga poder atingir a verdade pela razão. Nessa vereda, necessitamos de rejeitar toda a autoridade, derivada da teologia natural, revelada ou da filosofia, bem como o conjunto imenso dos nossos condicionamentos.




O SOFRIMENTO É PENSAMENTO



Face ao sofrimento, o que importa não é destruir o pensamento, diz Russell, mas sim dar-lhe nova direcção, ou afastá-lo do infortúnio que o perturba.
O sofrimento é pensamento – referimo-nos aqui ao sofrimento psicológico. Ora, cessando este, cessa aquele. Uma nova direcção pode constituir a substituição de um problema por outro, e o afastamento uma fuga. Se o pensamento cessa pela própria observação do padecimento e das suas mais profundas raízes, não há recalcamento, substituição ou fuga daquilo que é.




PARA QUÊ O JUÍZO FINAL?



Se todo o pecado for punido na Terra, então, para quê o Juízo Final?




QUEM É VIRTUOSO?



A virtude não implica o desprezo pelo prazer, o desejo crónico de aniquilação dos desejos, do medo e do “pecado”. Virtuoso é o que com constância se observa a si mesmo, e que tem consciência imparcial da sua verdadeira realidade.




UM MAU JUIZ



Um advogado experiente, que adquiriu incontestada fama ao longo de décadas, em regra, será um mau juiz. Tem no corpo e na alma o vício de roubar o que roubou e o que foi roubado.




DO SUICÍDIO - MATAR O QUE JÁ ESTÁ MORTO...



São muitos os pensadores que afirmam não ser o suicídio moralmente permitido.
No Fédon platónico, Sócrates questiona-se quanto ao facto de existirem pessoas para quem a vida se tornou num fardo insuportável, sendo a morte preferível à vida, pessoas essas que estão impedidas de prestar a si mesmas, sem impiedade, tal benefício e tenham de aguardar por benfeitor alheio. Mas, duvida que seja razoável que alguém se mate antes que Deus lhe imponha tal necessidade.
Mas se a maior parte dos homens já não vive em vida, qual o motivo porque querem matar o que já está morto?




PRAZER E DOR ESTÃO INTIMAMENTE LIGADOS



Prazer e dor estão intimamente ligados. Quando buscamos um, encontramos invariavelmente o outro.




CARNE E ESPÍRITO



Quem vive para o prazer da carne, das coisas materiais, descurando a paz do espírito, sucumbirá facilmente ao sofrimento, que sob múltiplas formas assombra a existência do rico e do indigente, do servo e do poderoso.




A ACEITAÇÃO DA VIDA



A vida é uma sucessão de factos. Aceitemo-los tal qual são.




A INVEJA É FONTE DE INFELICIDADE



A inveja é fonte de infelicidade. De todos os sentimentos negativos, é um dos mais negativos. O invejoso não só deseja a desgraça do invejado, como também sofre atrozmente por via do seu próprio desejo de possuir o que outrem possui. 




A SABEDORIA É A CONSTATAÇÃO DA NOSSA IGNORÂNCIA



A sabedoria é a constatação da nossa ignorância, da incognoscibilidade das questões metafísicas e da sua inevitável aceitação.




VIVEMOS UM TEMPO DE IGNORÂNCIA



Vivemos um tempo de ignorância. Mais ignorante do que aquele que não sabe, é o que efectivamente não sabe e teima no seu “saber”, sem que se esforce no sentido do conhecimento.




BERTRAND RUSSELL - O DESEJO DE AMOR, A BUSCA DO CONHECIMENTO E A COMPAIXÃO




Russell nasceu em 1872 e faleceu em 1970.
É um filósofo da pós-modernidade, cujos interesses principais são a lógica, a epistemologia e a metafísica, sem olvidar a matemática, ciência em que se licenciou no Trinity College, em Cambridge. Foi laureado com o prémio Nobel da literatura em 1950.

Algumas obras:
Principia Mathematica; O Método Científico em Filosofia; Introdução à Filosofia matemática; Ciência e Religião; Significado e Verdade; Os Problemas da Filosofia; O nosso Conhecimento do Mundo Exterior.

Afirmou que três paixões simples mas intensas, governaram a sua vida: o desejo de amor, a busca do conhecimento e uma enorme e insustentável compaixão pelo sofrimento dos seres humanos.

Ficou fundamentalmente conhecido, pela sua História da Filosofia Ocidental, e pelas teorias do atomismo lógico e das descrições.
A primeira teoria, defende que a linguagem pode ser analisada em átomos fundamentais de significado, verdadeiros blocos de construção com os quais todas as afirmações são construídas. A partir desta análise, pode proceder-se a uma análise do mundo, de molde a que os átomos lógicos correspondam a átomos metafísicos – factos.
A segunda, prende-se com a verdade das declarações. Se eu afirmar que o primeiro-ministro francês é louco, apenas terei de o constatar. Mas se afirmar que o “primeiro-ministro da cidade de Seia é louco”, verifico que algo terá a propriedade de ser primeiro-ministro em Seia, e esse algo tem a propriedade de ser louco. Agora, resta-me correr mundo, buscando alguém que tenha em si as duas propriedades enunciadas. Se o encontrar, a proposição será evidentemente verdadeira, se não o encontrar – como não encontrarei –, será obviamente falsa, mas sem que possamos afirmar que não tem qualquer significado.

O homem aceita as religiões, não por motivos racionais, mas meramente emocionais, fundamentados no temor. Medo do desconhecido e da insegurança. Medo do mistério, da infelicidade e da morte. E o medo gera a crueldade, motivo pelo qual esta caminha de mãos dadas com a religião – até uma análise superficial da história o confirma.

Bertrand Russell – Porque Não Sou Cristão – afirma que para se ser cristão é necessário que acreditemos em Deus, na sua imortalidade, e em Cristo. 
No caso deste último, devemos ter como base fundamental a crença de que podendo não ser de essência divina – rejeitando-se assim, a doutrina da Trindade –, será pelo menos, o melhor e mais sábio dos homens. No entanto, pergunto se poderá haver cristianismo sem assentimento do dogma da ressurreição? Julgo que não.

Russell não crê em Deus e na sua imortalidade, como também não acredita que Cristo tenha sido o melhor dos homens, ainda que lhe reconheça um grau elevado de virtude moral. Referindo-se ao Cristo dos Evangelhos, e não ao Cristo histórico, de cuja existência tem dúvidas, começa por enaltecer alguns dos seus preceitos, para depois se referir às imperfeições dos seus ensinamentos e analisa os problemas morais, enunciando os que reputa defeituosos – e são bastantes, nomeadamente, a crença no Inferno, em especial para os que não apreciavam as suas palavras, a parábola da figueira e da vara de porcos. Num plano moral superior ao de Cristo, estabelece Buda e Sócrates.

Buscou destruir alguns dos muitos argumentos aduzidos pela Igreja, na tentativa desta de afirmar racionalmente a existência de Deus.

ARGUMENTO DA CAUSA PRIMEIRA – 
Se tudo o que existe no mundo tem uma causa, percorrendo a cadeia de causas, não poderemos ascender ao infinito, motivo pelo qual chegaremos fatalmente à Causa Primeira, ou seja, Deus. É um argumento sem validade. Se tudo tem uma causa, também Deus a deve possuir – Quem criou Deus? –, e se algo existe sem causa, tanto pode ser o mundo como Deus. Não há nenhuma razão que impeça que mundo tenha surgido sem qualquer causa, bem como para o facto de ser eterno.

ARGUMENTO DA LEI NATURAL – 
As leis naturais constituem-se como uma descrição do modo como a realidade se comporta, e é de todo desnecessário sustentar que existe alguém ou algo que o imponha. E se o impõe, porque imporá estas e não outras, definidoras do melhor dos mundos, que não é este?

ARGUMENTO DO PLANO OU TEOLÓGICO – 
Por este argumento afirma-se que tudo no mundo está disposto de modo a permitir a nossa existência, e caso fosse ainda que ligeiramente diferente, tal não ocorreria. Não haverá ninguém de boa-fé, que possa acreditar que este mundo, que evolui há milhares de milhões de anos, com todas as suas imperfeições e defeitos, tenha sido a melhor produção possível de um Ser omnipotente e omnisciente.

ARGUMENTO MORAL A FAVOR DA DIVINDADE – 
Existem três argumentos intelectuais a favor da existência de Deus, que foram contrariados por Kant, na Crítica da Razão Pura: o Argumento Ontológico, o Cosmológico e o Físico-Teológico – ver Kant.
Mas criou um novo argumento de carácter moral – ver Kant, Crítica da Razão Prática –, que numa das suas formulações afirma que não existiria o mal ou o bem se Deus não existisse. Será que a distinção entre estas duas realidades se deve a um desígnio divino? Se se deve a um desígnio divino, é concebível a criação do mal por um ser absoluta e eminentemente bom?

ARGUMENTO QUANTO À REPARAÇÃO DA INJUSTIÇA –  
Considera-se por este argumento, que a existência de Deus é necessária para introduzir a justiça no mundo. Só que no nosso mundo reina a injustiça, pelo que necessitamos de um Deus, de um Paraíso e de um Inferno para que a justiça seja restabelecida. A existência de tantas injustiças no nosso planeta – inibo-me de enunciar factos notórios –, é um argumento contra a divindade e não a seu favor.


Haverá vida depois da morte? “Os filósofos costumavam pensar que existiam substâncias definidas – a alma e o corpo – que permaneciam idênticas; que a alma uma vez criada, continuava a existir por todo o tempo futuro, enquanto que o corpo cessava temporariamente, com a morte, até à ressurreição da carne.”
No entanto, no que toca ao espírito – sem que nos debrucemos aqui, por desnecessário, do corpo –, a continuidade mental de um indivíduo é de hábitos e de memória. Se sobreviver à morte, estes irão ter continuidade na nova existência, o que é de todo improvável por estarem ligados ao cérebro, que se decompõe com a morte, e nesta decomposição é de todo lógico que os seus processos também se decomponham. É assim, muito pouco provável que o espírito perdure para além da morte.
Tal como no domínio da religião, não são argumentos racionais, mas também emoções, que instigam os homens a acreditar numa “vida” depois da morte, sendo a mais insistente de todas, o medo – já que todo aquele que esteja absolutamente certo da existência numa vida futura, não deverá temer a morte.

O mundo é o resultado de um acidente, ou caso resulte de um propósito específico, deverá ter tido origem num demónio, diz de modo irónico. Julga o acidente a hipótese mais plausível e menos penosa.




NIETZSCHE - O SUPER-HOMEM - A MORTE DE DEUS




Nasceu em 1844 e faleceu em 1900. Afirmou ser sucessor de Schopenhauer, mas parece-nos, quer mais pessimista quer mais ateu. É um filósofo controverso, que não foi convenientemente entendido no decurso da história. Foi nomeadamente mal interpretado por Hitler e por Mussolini, mais por culpa da sua irmã, fascista e anti-semita, amiga de ambos, do que por culpa própria.
Foi um pensador com características provocatórias, e que apesar de não pertencer a nenhuma escola filosófica específica, teve a eloquência necessária para influenciar muitos filósofos posteriores.

Algumas obras:

É essencialmente conhecido pela negação da “moral escrava”, uma moral tradicional estribada no Cristianismo – gerada por um povo de reconhecida fraqueza.
O Super-Homem é o ser criativo e enérgico, que suplanta essa mísera “moral escrava”
A Origem da Tragédia; O Livro do Filósofo; Considerações Intempestivas; Humano, Demasiado Humano;  Aurora; Assim falava Zaratustra; A Gaia Ciência; Para Além do Bem e do Mal; A Genealogia da Moral; O Crepúsculo dos Ídolos; A Vontade de Poder; O Nascimento da Filosofia na Época da Tragédia Grega; O Anti-Cristo; Ecce Homo.

Tanto o Cristianismo quanto a civilização ocidental constituíram-se como objecto principal das suas críticas.

Afirmou que “Deus está morto”, o que lhe causou inúmeros problemas.

Teve uma vida simples. Nervoso, constantemente doente, enlouqueceu no ano de 1888. 

Foi um crítico do Romantismo e teve uma opinião negativa de Kant.

Podemos considerá-lo um crítico ético da religião e dos sistemas filosóficos.

Tem uma enorme aversão ao Novo Testamento, mas admira e exalta o Velho.

Despreza as mulheres e exerce uma profunda crítica sobre o Cristianismo. As mulheres são gatas, aves ou vacas – “o homem deverá ser preparado para a guerra e a mulher para passatempo do guerreiro, tudo o mais é pura loucura.”
O Cristianismo é uma moral de escravos, ensinando os homens a vergarem-se a uma suposta vontade de Deus, transformando os crentes em ovelhas.
A ética cristã tem por finalidade controlar uma populaça cheia de medos e de superstições, sendo a “culpa” a sua arma mais poderosa. Não se limita a atacar a instituição em si, atacando também os sacerdotes, que são covardes a exercer os seus poderes sobre uma multidão ainda mais covarde.

Em vez do santo, Nietzsche prefere o homem nobre que não se submete a qualquer poder. O Super-Homem de Nietzsche, era todo o ser humano capaz de se elevar acima do rebanho, rejeitando submissão e passividade, realizando-se neste mundo sem a esperança vã de um qualquer outro, ilusório por natureza – o reino dos céus.

Existem no seu entender duas espécies de santos: os que o são por natureza e os que aparentam sê-lo por medo – são estes últimos os visados nos violentos ataques do filósofo.

Em Nietzsche há uma ausência de simpatia pelo próximo, ao contrário do que ocorre com o Cristianismo e com o Budismo.




SCHOPENHAUER - PESSIMISMO - A VONTADE É SUPERIOR AO PENSAMENTO




Schopenhauer é um pessimista – ao contrário da quase totalidade dos filósofos –, que afirma ter sido influenciado por Kant, por Platão e pelos Upanishades. Filósofo com aversão ao cristianismo, deu preferência às religiões orientais, fundamentalmente ao Hinduísmo e ao Budismo.
Não tinha grande apreço por Hegel e procurou destruir os princípios da sua filosofia. Mas tal como Hegel, pode ser considerado ateu, só que este, deve ser considerado um ateu optimista.
Os dois pontos fulcrais da filosofia de Schopenhauer, são o pessimismo e a tese de que a vontade é manifestamente superior ao pensamento.

Algumas obras:

O Mundo como Vontade e Representação – O mundo tal como o percepcionamos é nossa representação, sem realidade em si mesmo. Mas, a vontade é o conhecimento a priori do corpo e o corpo o conhecimento a posteriori da vontade – o corpo é a objectividade da vontade.

Aforismos sobre a sabedoria na Vida – Fazem parte da obra Parerga e Paralipomena. Obra repleta de excelentes meditações e análises brilhantes.

Parerga e Paralipomena – que significa suplementos e omissões, é a reunião de vários ensaios.
Foi por intermédio destes escritos que o filósofo atingiu a fama, e não como preconizara, pela sua obra de referência, O Mundo como Vontade e Representação.

Da Quádrupla Raiz do Princípio da Razão Suficiente

Ensaio sobre o Livre arbítrio

O Fundamento da Moral

Deu uma grande importância à sua obra O Mundo como Vontade e Representação, tanta, que chegou a afirmar que alguns dos parágrafos derivavam directamente do Espírito Santo. No entanto, não teve a mesma divulgação e a fama que tão ardentemente aspirava.

Apesar de influenciado por Kant, identifica a coisa-em-si, com a vontade. A sua vontade é una e está para além do tempo; identifica-se com a do universo. O seu pensamento poderia conduzir a uma identificação desta vontade com Deus – aproximando-se da especulação de Espinoza relativa ao panteísmo, em que a virtude é o reflexo da conformidade da vontade humana com a vontade divina. Mas o filósofo é pessimista e esta vontade cósmica é maléfica, perversa, causa do padecimento humano – a vontade na natureza manifesta-se pelo instinto de sobrevivência. Assim, quanto menos exercitarmos a moral, menos padeceremos.

Considerava o Budismo a religião mais elevada – já o Islamismo afigurava-se-lhe odioso – e o Nirvana – a extinção no sentido específico que lhe atribui – o melhor de todos os mitos. O santo deve buscar a não-existência, mas não pelo suicídio. O homem deve dedicar-se ao ascetismo, mas não com o intuito de atingir Deus – o bem que busca, não é assim positivo, mas negativo.

A vida é sofrimento; os desejos são fonte de dor. Quanto maior o conhecimento humano, mais se sofre. O próprio amor é uma ilusão, que reduzido à sua causa primeira, reflecte única e exclusivamente a vontade de sobreviver por intermédio da procriação.

Define a estética como imersão integral na contemplação da beleza.

Defende a existência de uma ética estruturada na compaixão e na abstenção do indivíduo, entendida como negação de si – esta negação prosseguiria a neutralização da detestável vontade.

Embora pela morte se atinja o termo, continuamos a ocupar-nos com futilidades, como quem sopra até aos seus limites, uma bola de sabão, sabendo que a mesma acabará por rebentar. 




HEGEL - PARA UMA COMPREENSÃO DA SUA FILOSOFIA




Mais do que Fichte e Schelling – também filósofos do Idealismo Germânico –, foi Hegel quem desenvolveu a filosofia kanteana, não obstante discordasse de muitas das suas ideias. Teve como objectivo estabelecer uma escola filosófica capaz de explicar cabalmente a experiência no seu aspecto total, em função do passado, presente e futuro, ou seja, do tempo. 
Será interessante realçar, que Fichte julgou ser o seu próprio criador, assim como a existência do mundo é uma criação sua – penso, logo tudo existe.

Nasceu no ano de 1770 e faleceu em 1831.
Como já se disse, sofreu uma marcante influência de Kant, e influenciou os principais filósofos de língua inglesa.
Ensinou filosofia em várias universidades, tendo terminado a sua vida em Berlim. 

É talvez, de todos os que reputamos como grandes filósofos, o mais difícil de compreender. A tentativa de compreensão da realidade por intermédio de escritos algo obscuros teve como consequência o facto de alguns filósofos afirmarem que o compreenderam sem que o tivessem compreendido, enquanto outros, afirmaram a impenetrabilidade parcial das suas doutrinas para além de as julgarem pouco convincentes. Eu, pessoalmente, julgo que não o compreendo, e desse facto desde já vos alerto.
Parece-me que a sua tese principal se prende com o facto de que qualquer parte do todo, é sempre uma fracção deste, cuja existência depende do relacionamento que mantém inelutavelmente com as outras partes. Daqui se depreende, que pelo conhecimento de uma parte em especial, se conhece o geral, o todo, em virtude de cada parte estar intimamente ligada a todas as outras partes, sempre com ligações sucessivas. Da reconstituição destes relacionamentos, o homem pode ascender à imagem do Universo na sua completude – o que ocorre tanto no mundo dos objectos materiais quanto no mundo dos pensamentos.

No que toca ao mundo do pensamento, tomada uma ideia abstracta, verificamos de imediato as contradições a que conduz. Ora estas contradições modificam-se na ideia oposta – antítese. Daí, vamos buscar uma nova ideia, que seja mais perfeita, e que no fundo, só pode ser a síntese da tese – da ideia original – e da sua antítese, e assim sucessivamente, atingindo o processo dialéctico a Ideia Absoluta – que não tendo oposto, desobriga-nos de novos procedimentos – que representa a realidade absoluta.
Ora, se viermos a atingir o Todo, tal como pensamos que Deus o atinja ou percepcione, verificaremos que “o espaço, o tempo, a matéria, o bem, o mal, desaparecerão, dando lugar a uma unidade espiritual, eterna, imutável e perfeita”.


Obras principais:

A Fenomenologia do Espírito – É a história da consciência, da alma transformada em consciência e da própria consciência nos seus momentos de desenvolvimento.
Obra de grande importância no panorama do pensamento humano, mas de difícil leitura e compreensão.

Princípios da Filosofia do Direito – Texto que teve a sua origem no ensino do filósofo, e que pretende unificar o Direito e a Moral, o objectivo e o subjectivo.
No prefácio, Hegel diz-nos que a filosofia é o conhecimento daquilo que é e não daquilo que o mundo deve ser.

Outras obras:
A Ciência da Lógica; Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Epítome; Estética; Lições sobre a Filosofia da Religião; Lições sobre a História da Filosofia – 1833 a 1836; Lições sobre a História da Filosofia – 1837; Conferências sobre as Provas da Existência de Deus; Propedêutica Filosófica.

Para Hegel, a realidade é o Espírito Absoluto – existe aqui um manifesto monismo, ou seja, a realidade é composta por um único elemento. Se o Absoluto, em termos físicos é a natureza – o mundo –, já na sua forma espiritual, é a mente do ser humano. Apenas o todo é real, e o real é racional, bem como o racional é real. O todo é o Absoluto que evolui pela síntese, melhor, pelo conflito dos opostos – a tese ao encontrar o seu oposto, a antítese, atinge a síntese, encontrando esta por sua vez, a sua própria antítese, produzindo uma nova síntese, e assim sucessivamente. A capacidade intelectiva do homem, faz com que o Absoluto atinja o autoconhecimento – será que desta forma, o homem é partícipe no complexo processo da criação de Deus?

Deu uma grande importância à lógica. O seu processo dialéctico celebrizou-o. A dialéctica é composta por tese, antítese e síntese. Sigamos o seguinte exemplo, citado por Russell:
“O Absoluto é Ser puro”. Admitamos este “é” sem designar quaisquer qualidades. Mas o puro ser sem qualidades é nada, o que leva à antítese, “O Absoluto é nada”. 
Da tese e da antítese passamos à síntese. A união de ser e não ser é evolver, e assim diremos, 
“O Absoluto é evolver”. 
Mas também não basta, porque tem de haver alguma coisa que evolva.
Para chegar à verdade é necessário seguir todos os passos da dialéctica.
O processo dialéctico tem três destinos essenciais: 
- a arte – por esta, é-nos demonstrada a beleza das formas materiais do Absoluto;
- a filosofia – é por esta, estribados na razão, que reconhecemos o Absoluto;
- a religião – aqui fica determinado que o cristianismo é a melhor das religiões – a encarnação representa uma expressão dos aspectos finitos e infinitos do Absoluto, atingindo-se deste modo a síntese.

Em filosofia a verdade é o todo, nenhuma parte podendo ser verdadeira.
A Ideia Absoluta, é pensamento puro que se pensa a si mesmo.




KANT - O MAIOR FILÓSOFO DA MODERNIDADE?




Immanuel Kant nasceu em 1724 e faleceu no ano de 1804. Viveu em Konigsberg.

Tem sido considerado o maior filósofo da modernidade, não obstante a existência de algumas vozes discordantes.

Apesar de ter sido educado com a filosofia de Leibniz, acabou por ser influenciado por Rousseau e por Hume – este, que nas suas próprias palavras, o terá despertado do seu sono dogmático

Era liberal e sentia-se atraído pela democracia.


Obras principais:

Crítica da Razão Pura – É a obra principal de Kant. Nela, o filósofo pretende reabilitar a razão – por intermédio de um “tribunal”, que é a crítica da própria razão pura – contra o cepticismo.

Crítica da Razão Prática – Também uma das principais obras de Kant, que intenta descortinar o modo como a vontade pura pode ter interesse na lei moral.
Nestes escritos, surgem-nos os postulados da razão prática, que entram em domínios vedados à razão teórica, v.g., a existência de Deus e a imortalidade da alma.

Prolegómenos a toda a Metafísica Futura que possa apresentar-se como Ciência – Trata-se de uma exposição facilitada da filosofia de Kant, talvez para alargar o número de leitores – o que apesar do valor da obra, acabou por não atingir os objectivos pretendidos.

Outras obras:

História Geral da Natureza e Teoria do Céu; Considerações sobre o Optimismo; O Conceito de Grandeza Negativa; Observações sobre o Sentimento do Belo e do Sublime; Sonhos de um Visionário explicados pelos Sonhos da Metafísica; Dissertação de 1770; Ideia de uma História Universal de um Ponto de Vista Cosmopolita; Fundamentação da Metafísica dos Costumes; Primeiros Princípios Metafísicos da Ciência da Natureza; O que Significa Orientar-se no Pensamento; Crítica da Faculdade de Julgar; A Religião nos Limites da Simples Razão; Projecto de Paz Perpétua; Antropologia do Ponto de Vista Pragmático; O Conflito das Faculdades; Lógica; Reflexões sobre a Educação.

Escreveu inicialmente obras de carácter científico, nomeadamente a História Geral e Natural e Teoria dos Céus, editada em 1755. 

A obra filosófica mais conhecida e de enorme importância na história do pensamento, é a Crítica da Razão Pura, que pretende demonstrar, que embora não haja conhecimento que transcenda a experiência, é em parte a priori e não de modo indutivo derivado daquela. Definiu dois tipos de julgamento: o analítico e o sintético. No primeiro, a verdade pode ser determinada dentro de si mesma, tal como na afirmação de que “todas as casas pretas são pretas”. No segundo, a verdade está para além de si, como por exemplo, quando se afirma que a casa é preta. Refere ainda o conhecimento a priori e a posteriori. No primeiramente enunciado, a afirmação de que todas as casas pretas são pretas, não necessita da minha percepção para que seja confirmado, contrariamente à afirmação de que “a casa é preta” – neste caso preciso de ver a casa para determinar a sua cor. O conhecimento transcendental é um conhecimento a priori, que contém uma dada informação que reconhecemos de imediato como verdadeira. Já o conhecimento empírico, é um conhecimento a posteriori, sendo necessário confirmar a sua veracidade. O mundo fenomenal é o mundo que experimentamos por intermédio dos nossos sentidos, enquanto que o mundo numénico – coisa-em-si – é a realidade que está para além do mundo fenomenal – Kant acreditava que temos uma noção intuitiva acerca da natureza do mundo numénico (metafísico). O nosso conhecimento não é assim obtido, apenas por intermédio dos nossos sentidos – empirismo – ou por intermédio da razão – racionalismo.

Para Kant, Deus não é objecto de conhecimento e a teologia não passa de conversa fútil.
Quando muito, Deus pode ser uma ideia pura da razão, não demonstrável, postulado e não cognição da ordem moral da razão prática.

Na Crítica da Razão Pura, destrói com notável destreza as provas racionais da existência de Deus, que na sua perspectiva, são três: a ontológica, a cosmológica e a físico-teológica.
Há no seu entender, outros fundamentos idóneos ao estabelecimento da crença, e esses são enunciados na Crítica da Razão Prática.

Vejamos uma síntese dos seus argumentos atinentes aos mencionados argumentos racionais, conforme expendida por Bertrand Russell:
- A ontológica define Deus como ens realissimum, o ser mais real, isto é, sujeito de todos os predicados que lhe pertencem absolutamente. Afirmam os que a julgam válida que sendo a existência um predicado, tal sujeito deve ser esse predicado, isto é, deve existir. Kant objecta que a existência não é um predicado. Cem talers imaginados, diz ele, têm os mesmos predicados de cem talers reais.
- A prova cosmológica diz: Se alguma coisa existe, existe um ser absolutamente necessário; ora eu sei que existo, portanto um ser absolutamente necessário existe e deve ser o ens realissimum. Kant afirma que o último passo do argumento é novamente o ontológico já rejeitado.
- A prova físico-teológica é o argumento do plano mas em traje metafísico. Afirma que o Universo revela uma ordem, demonstrativa de propósito. Kant trata com respeito este argumento, mas nota que quando muito demonstra um Arquitecto, não um Criador, e não dá portanto uma concepção adequada de Deus. Conclui que a única teologia possível da razão é a baseada em leis morais ou guiada por elas.

Para Kant, Deus e imortalidade são verdadeiramente ideias da razão, sem que esta possa demonstrar a sua realidade. São ideias práticas directamente relacionadas à moral.
As propriedades metafísicas da alma – simplicidade, substancialidade, espiritualidade, imortalidade – não são objecto do conhecimento.

Considera que há Deus e uma vida para além da morte, porquanto deve existir uma felicidade que seja proporcional à virtude, felicidade esta, que só a providência pode assegurar.