O PENSADOR

O PENSADOR
RODIN
Mostrar mensagens com a etiqueta FILOSOFIA GREGA. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta FILOSOFIA GREGA. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

CEPTICISMO




Os cépticos procuram como muitos outros, alcançar a felicidade, mas através da ataraxia. Através da indagação refutam todas as doutrinas, demonstrando a sua falibilidade. É de todo impossível saber seja o que for. Só podemos conhecer através da percepção, mas esta é manifestamente suspeita, por ilusória, e em consequência, não confiável.
O céptico opta por uma afirmação inicial que o não conduz à investigação: ele não sabe, ninguém sabe, e ninguém virá a saber em tempo algum.



O ESTOICISMO




O período concernente à filosofia pós-aristotélica ocupa-se fundamentalmente do problema moral. Sócrates, foi no nosso entender, o filósofo que mais influenciou os estóicos. A aceitação de uma sentença injusta que poderia ter sido por si evitada, a resignação que demonstrou no cárcere, a recusa em aproveitar uma fuga organizada, a tranquilidade no momento da execução, a sua indiferença ao luxo e aos prazeres mundanos consubstanciam uma atitude puramente estóica.

O estoicismo teve um primeiro desenvolvimento grego e um segundo romano. A virtude é o caminho para a felicidade. O filósofo estóico deverá recolher-se na “fortaleza da alma” (Marco Aurélio). 

De todos os estóicos, só dos tardios – Séneca, Epicteto, Marco Aurélio (séculos I e II d.C.) – temos obras completas.

O estóico obedece a Deus, acolhe com uma alma pura todo e qualquer acontecimento, não se lamentando do destino. Aceita e reconhece o que os infortúnios trazem de bom – porquanto nada é só bom ou mau –, não se deixando inquietar pelas excitações produzidas pelo prazer e pela dor. 
Procuravam aceitar sem se revoltarem as inúmeras contrariedades e o sofrimento causados pela vida.




INICIAÇÃO À FILOSOFIA ANTIGA





Quase todas as hipóteses e questões da filosofia moderna foram pensadas pelos gregos.

Os PRÉ-SOCRÁTICOS são audazes e espontâneos. Com eles o pensamento organiza-se e pressagia-se uma nova era na história da humanidade. Procuraram explicar o mundo utilizando um método que qualificaremos ainda que com alguma imprecisão científico, por oposição à explicação mítica da realidade. Daí a sua imensa importância no panorama do pensamento.
Conhecemos os seus pensamentos, quer por fragmentos das suas obras – alguns recolhidos e transcritos por autores que lhes aditaram indevidamente interpretações meramente pessoais – quer fundamentalmente pelos escritos de filósofos posteriores, que vão de Platão – século IV a.C. – e Aristóteles, a Simplício – século VI d.C. –, realçando-se para além dos citados, Teofrasto, Plutarco, Sexto Empírico, Clemente de Alexandria, Hipólito e Diógenes Laércio – historiador da filosofia grega, viveu no século III d.C., e escreveu “Vida, Doutrinas e Sentenças dos Filósofos Ilustres”. Atente-se, que da filosofia grega, apenas Platão, Aristóteles e Plotino têm as suas obras preservadas quase que integralmente.

No período anterior a Sócrates, a palavra Deus não tem uma conotação religiosa idêntica à dos períodos subsequentes – deus como objecto de culto. Os filósofos pré-socráticos poderiam ter desenvolvido a Teologia Natural, até aos seus fins últimos, mas como ensina Étienne Gilson, não o fizeram porque não queriam perder os seus deuses.

Nas tradições religiosas em que abundam muitos deuses, cada ente divinizado representa uma energia positiva ou negativa, criativa ou destrutiva. Os deuses gregos são dinâmicos, verdadeiras entidades viventes, tal como o homem. No entanto, não são atingidos pela morte – por isso, também eram denominados Imortais – e influenciam o destino dos mortais, dependendo estes da sua graça ou da sua desestima. Mas, com o nascimento da filosofia, o homem religioso que também é filósofo, haveria de considerar que a causa primeira, ou se quisermos “princípio”, é a explicação válida para a existência do todo, ou seja, do que existiu, do que existe e do que existirá no porvir. Como bem anota Hobbes – Da Natureza Humana –, “O Ser que existe com o poder de produzir, se não fosse eterno, deveria ter sido produzido por algum Ser anterior a ele e este por um outro Ser que o tivesse precedido. É assim, que remontando de causas em causas, chegamos a um poder eterno, ou seja, anterior a tudo, que é o poder de todos os poderes e a causa de todas as causas. É isso que todos os homens concebem pelo nome de Deus, que encerra eternidade, incompreensibilidade, omnipotência”. 

Tales e os que se lhe seguiram eram filósofos e procuraram o primeiro princípio, independentemente da existência de múltiplos deuses, que também dominavam o panorama religioso ao tempo de Sócrates, Platão e Aristóteles. No Timeu, Platão concede à divindade um carácter politeísta, dela participando vários deuses, cada um com funções e domínios específicos – o demiurgo é apenas o seu superior hierárquico.  
E quer queiramos quer não, também o nosso mundo está repleto de deuses...
Anote-se, apesar de tudo, que enquanto os filósofos gregos se debatiam com a questão dos seus deuses e do seu lugar no mundo, o povo judeu já havia encontrado a resposta às suas inquietações: o seu Deus e Senhor era único e apresentara-se a Moisés como Javé, “Eu sou o que sou”.

Segundo Simplício, alguns filósofos, nomeadamente Anaximandro, Demócrito, Leucipo e no período tardio da filosofia grega, Epicuro, imaginaram mundos incontáveis que nasciam e morriam ad infinitum, alguns nascendo sempre e outros morrendo.

Muito antes das descobertas científicas iniciadas com Galileu e Copérnico, já os gregos expunham hipóteses absolutamente verosímeis: Enópides, que viveu no tempo de Anaxágoras, descobriu a obliquidade da elíptica; Heraclides do Ponto, nascido em 388 a.C., descobriu que os planetas Vénus e Mercúrio giram em torno do Sol e que a Terra gira sobre o seu próprio eixo, com uma rotação completa a cada 24 horas; Aristarco de Samos, nascido em 310 a.C., afirmou que todos os planetas giram à volta do Sol, incluindo a Terra, que tem um movimento de rotação de 24 horas; Arquimedes afirmou, por seu turno, que quer as estrelas fixas quer o Sol não se movem e que a Terra gira em volta deste. A hipótese de Aristarco apenas foi defendida na Antiguidade, por Seleuco, que floresceu por volta do ano 150 a.C, e tida por errónea até Copérnico – custa-nos a acreditar que este a desconhecia.

SÓCRATES, foi mestre de Platão e nas palavras de Cícero trouxe a filosofia do céu para a terra. Filosofa sobre o homem e o mundo que com ele interage, tendo adoptado a divisa délfica “Conhece-te a ti mesmo”. 
Devemos o conhecimento dos seus ensinamentos a Platão.

É justo afirmar, que quer Platão quer o seu discípulo Aristóteles foram os filósofos mais influentes de todo o período filosófico até à idade moderna. Talvez Platão, tenha exercido uma maior influência do que o seu discípulo Aristóteles, já que a filosofia cristã até ao século XIII foi essencialmente platónica.

PLATÃO pensa tudo o que é pensável. Segundo Karl Jaspers – Iniciação Filosófica –, “atingiu uma culminância tal, que parece, ninguém poder subir mais alto nos domínios do pensamento. É dele que dimanam até hoje os mais profundos impulsos para a filosofia”. O mesmo filósofo afirma “que o futuro pensador assinala-se pela maneira como compreende Platão”.
Pode dizer-se que foi tão longe quanto possível. Não há nada que lhe seja indiferente. Quis que a pesquisa filosófica incidisse sobre “as figuras rectas ou circulares, as cores, o bem, o belo e o justo, todo o corpo artificial ou natural, o fogo, a água e todas as coisas do mesmo género, toda a espécie de seres vivos, a conduta da alma, as acções e as paixões de toda a espécie”.
Para Platão, o Universo foi arquitectado por um demiurgo que teve como imagem ou padrão o Bem.

ARISTÓTELES, discípulo de Platão, é indubitavelmente um dos fundadores da filosofia ocidental. Os seus ensinamentos tiveram uma fama imensa, quase “ditatorial” durante a Idade Média.
Em Aristóteles o Bem é imutável e o Universo tem uma tendência irresistível à sua imitação.

A ESCOLA PERIPATÉTICA nada trouxe de inovador aos ensinamentos do mestre Aristóteles. Destacam-se Teofrasto, que defendeu a teoria aristotélica da eternidade do mundo e Estratão, que não se socorre da divindade para explicar a criação do mundo.

As três grandes escolas pós-aristotélicas, que dominaram o panorama filosófico da antiguidade, são: o ESTOICISMO, o EPICURISMO e o CEPTICISMO. Evidentemente, que as mencionadas escolas não podem estar de acordo quanto aos seus pressupostos teóricos, mas nos fins a atingir ao nível prático, denotam uma curiosa concordância: prosseguem todas elas a felicidade do homem, que se obtém essencialmente pelo fim da inquietude e ausência de desejos e paixões.

O estoicismo desbravou o caminho para o cristianismo.

A época clássica da filosofia grega, reconheceu na pesquisa o seu valor fundamental. A investigação filosófica alicerça-se na razão, e não na tradição e na revelação, como ocorre com a teologia.

Com os filósofos tardios – contando-se entre eles os eclécticos – e o seu profundo interesse religioso, muito especialmente com os do denominado período romano – Séneca, Epicteto, Marco Aurélio –, quer a tradição quer a revelação tomam assento nas especulações, quase que pressagiando o aparecimento da filosofia cristã.

A filosofia antiga, termina com a figura ímpar de Plotino.




quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

NUMÉNIO DE APAMEIA - A FILOSOFIA GREGA DERIVA DA ORIENTAL




Segunda metade do século I d.C.

Viveu na Síria, sendo a sua doutrina influenciada, quer pelos pitagóricos quer por Platão.

Interessante é realçar que julga derivar a filosofia grega da oriental.

Reconhece três entes divinos: o Deus primeiro, é o princípio da realidade e rei do cosmos, sendo puro intelecto; o demiurgo, segundo Deus, age sobre a matéria e forma o mundo; o próprio mundo é o terceiro Deus.

Tal como os estóicos e Platão, declara que a encarnação da alma é sempre um mal, por se ver aprisionada e sujeita às múltiplas intempéries perniciosas da vida.





SEXTO EMPÍRICO - A SÍNTESE DO CEPTICISMO GREGO




Viveu no século II d.C. Foi influenciado por Platão e por Pirro de Élis.
Viveu em Alexandria e em Atenas, tendo dirigido a escola céptica de 180 a 210. Exerceu a medicina.

Não escreveu nenhuma obra que possa ser considerada relevante no domínio do pensamento filosófico. Pelos seus escritos, Esboços Pirronianos, Contra os Dogmáticos, Contra os Professores, fez-nos conhecer praticamente tudo o que sabemos acerca do cepticismo grego e dos ensinamentos de Pirro.  É assim, a fonte mais fidedigna do antigo cepticismo, por ser o único filósofo céptico do período antigo de quem temos obras. 

Diz-nos nos Esboços Pirronianos, obra que resume o pensamento céptico da antiguidade, que pelo cepticismo atingimos em primeiro lugar a suspensão do pensamento – pelo reconhecimento de que não vale a pena preocuparmo-nos com o que não pode ser conhecido –, e de seguida, a liberdade em relação às perturbações – a felicidade é a libertação da perturbação mental (ataraxia).

Criticou veementemente o conceito estóico de divindade na obra Argumentos contra a Crença em Deus.





TÍMON - DISCÍPULO DE PIRRO




Foi discípulo de Pirro e faleceu em 235 a.C..

A filosofia grega apenas admitia a lógica dedutiva, partindo de princípios evidentes. Se estes princípios não podem ser de forma alguma encontrados, então, nada pode ser demonstrado.





PIRRO - O CEPTICISMO




Nasceu em 365 a.C. Foi discípulo de Demócrito e combatente do exército de Alexandre. Terá conhecido os pensadores indianos quando acompanhou Alexandre na sua expedição. Faleceu em 275 a.C.. 
Foi o fundador do cepticismo.

Afirma que não existem coisas boas ou más, belas ou feias, e o mais importante, verdadeiras ou falsas. Considerando que as coisas não são perfeitamente apreendidas pelo entendimento humano, melhor será que suspendamos o nosso juízo sobre a natureza das mesmas. A suspensão do juízo, conduz-nos pela indiferença, à ataraxia. 

É com Pirro que o cepticismo ganha o estatuto de “escola filosófica”. No entanto, não podemos considerar o cepticismo uma verdadeira escola, mas uma mera orientação teórico-prática, que foi o sustentáculo de várias escolas da antiguidade.

Pirro influenciou Sexto Empírico, que nos deu a conhecer com alguma precisão os seus ensinamentos – Esboços Pirronianos.





EPICURO - O EPICURISMO - A EXTINÇÃO DO SOFRIMENTO




Fundador do epicurismo, nasceu em 341 ou 342 a.C., tendo passado a infância em Samos. Começou a estudar filosofia aos 14 anos. Em 311 fundou em Mitilene a sua primeira escola, e em Atenas no ano de 207. Morreu em 270-1 a.C.. Foi muito provavelmente aluno de Xenófanes.

A vida na sua escola era simples e a comida frugal, essencialmente pão, e a bebida água. Dizia que o corpo lhe tremia de prazer quando se sustentava de pão e água, e cuspir nos prazeres luxuosos, não por eles, mas pelos males deles resultantes.

Epicuro escreveu extensa obra. Apesar de não restar muito dos seus escritos, do que dispomos, ficamos com uma ideia algo precisa do seu pensamento.

Diógenes Laércio transcreveu três cartas suas:
- A Heródoto, sobre a Física;
- A Pitoclo, sobre os meteoros; e
- A Meneceu, sobre a moral.
Para além destas, dispomos de quarenta máximas. Num manuscrito existente no Vaticano, foram descobertas cerca de oitenta outras máximas. Temos ainda acesso a alguns fragmentos da sua obra Sobre a Natureza.

A sua filosofia destinava-se a dar tranquilidade ao homem, mas buscava mais a extinção do sofrimento, do que propriamente o prazer. Deve ter sido o problema do medo, que o levou à sua doutrina filosófica. As suas causas são a religião e a morte.

A filosofia é o verdadeiro caminho para a felicidade, e esta, só é atingível quando o homem se conseguir libertar das paixões que o assolam e lhe dizimam o espírito. Julga e pratica a máxima de que “é não só mais belo, mas também mais agradável fazer o bem do que recebê-lo”.

A doutrina epicurista teve reprovável aproveitamento por alguns dos seus intérpretes e seguidores, o que levou Séneca a acorrer em seu auxílio, dizendo que Epicuro nos forneceu preceitos veneráveis e justos, que quando devidamente observados, denotam severidade. A fama de ser uma escola de perdição é uma injustiça, um erro – o que não impediu a sua prejudicial reputação.

Tudo é corpo, menos o vazio, que é incorpóreo – Epicuro adoptou quase que na íntegra a física de Demócrito.

Admite a existência de deuses, que não são activos, pois com nada se preocupam, atenta a felicidade de que gozam, não se imiscuindo nos assuntos dos seres humanos, pelo que não devem ser temidos.

A alma, que é material, composta de átomos dispersos pelo corpo, morre com este, já que os seus átomos se dispersam – a influência da doutrina atomista é clara nesta tese.

A morte é inevitável, mas não forçosamente um mal.

A filosofia de Epicuro, pode ser sintetizada num “remédio quádruplo”:
- Libertar a humanidade do medo dos deuses, já que pela sua natureza, absolutamente feliz, não se interessam nem se ocupam das coisas dos homens;
Os deuses não são activos, porquanto: A divindade, ou quer suprimir os males e não pode, ou pode e não quer, ou não quer nem pode, ou quer e pode. Se quer e não pode é impotente; e a divindade não o pode ser. Se pode e não quer, é invejosa, e a divindade não o pode ser. Se não quer e não pode, é invejosa e impotente, portanto não é divindade. Se quer e pode (que é a única coisa que lhe é conforme) donde vem a existência dos males e porque não os elimina?
- Libertar os homens do medo da morte, já que ela em nada consiste. Em bom rigor, quando existimos nós, não existe a morte, e quando ela existe, somos nós que não existimos.
- Indicar ao homem o caminho que leva ao prazer, atenta a sua acessibilidade.
Epicuro afirmou na obra “Sobre o Fim”: Em minha opinião não sei conceber que coisa é o bem se prescindo dos prazeres do gosto, dos prazeres do amor, dos prazeres do ouvido, dos que derivam das belas imagens percebidas pelos olhos e, em geral, todos os prazeres que os homens têm pelos sentidos. Não é verdade que só o gozo da mente é um bem; dado que também a mente se alegra com a esperança dos prazeres sensíveis em cujo desfrute a natureza humana pode livrar-se da dor.
- A brevidade da dor.

Lucrécio, nascido em 99 a.C., foi o maior discípulo de Epicuro, tendo poetizado a sua doutrina, sem a desvirtuar – De Natura Rerum.





CRISIPO - TERCEIRO MESTRE DO ESTOICISMO ANTIGO




Nasceu em 280 e faleceu em 207 a.C. Foi o terceiro mestre do estoicismo antigo. Terá sido discípulo da Academia antes de se tornar um dos mais firmes defensores do Pórtico.

Julga, que apenas Zeus – o fogo supremo – é imortal. Todos os outros deuses – nomeadamente o Sol e a Lua – tiveram nascimento e estão sujeitos à inevitável morte.

A felicidade do homem de bem é similar à felicidade de Deus.

Só a alma do homem sábio, do virtuoso, sobrevive até à conflagração universal – posição parcialmente contrária à de Cleantes.





CLEANTES DE ASSOS - DISCÍPULO DE ZENÃO DE CITIUM




Nascido em 330 a.C. e falecido em 232, terá sido no princípio da sua vida atleta e fez-se discípulo de Zenão. Consta-se que durante a noite era cavador de poços, de forma a poder seguir durante o dia os ensinamentos do mestre. Após a morte deste, passou a dirigir a escola estóica.

Afirmou que Aristarco de Samos devia ser condenado por impiedade.

As almas sobrevivem até ao momento da conflagração universal, momento em que tudo é absorvido em Deus.





ZENÃO DE CITIUM - O ESTOICISMO




Nascido por volta de 336 a.C., foi o fundador da escola denominada estoicismo, tendo sido discípulo do cínico Crates. Daí a aproximação da doutrina estóica à cínica. Supõe-se que tenha posto fim aos seus dias voluntariamente.

Está representado com algumas dezenas de páginas, na obra Fragmentos dos Antigos Estóicos.

Os estóicos buscam a felicidade por intermédio da virtude, mas não abandonam nem minimizam a ciência, antes a julgam necessária para a prossecução do fim a que aspiram. De qualquer modo, a virtude é o melhor e o mais excelente dos bens; é o conceito central da filosofia de Zenão.

Consideram a existência de uma ordem que não é mutável, absolutamente necessária e perfeita, que tudo mantém, identificando-a com Deus – são panteístas –, que é um princípio activo – do qual derivam todas as coisas, ou melhor, causa de tudo o que existe –, o próprio cosmos. Deus é corpóreo e o espírito ígneo do mundo.
Deus não está separado do mundo. Ele é a alma do mundo e cada ser humano contém em si uma parte do fogo divino.

A alma é corpórea. Curiosamente, Deus também o é. Só quatro são as coisas incorpóreas: o significado, o vazio, o lugar e o tempo. É uma parte da Alma do mundo, que é Deus, sobrevivendo à morte por nela se refugiar.

Os estóicos aceitavam face à noção de dever, que o homem deve abandonar esta vida, mesmo que esteja inundado de felicidade. Zenão morreu de morte voluntária no ano de 264.

Contrariamente a Aristóteles, que justificava a escravatura, consideravam-na uma verdadeira crueldade.





ARISTÓTELES - A ESCOLA PERIPATÉTICA, TEOFRASTO, ESTRATÃO





Por volta do ano 335, após treze anos de ausência, Aristóteles regressou a Atenas e fundou o Liceu, onde era praticada a vida em comunidade. Para além do edifício principal e dos jardins, existia o passeio ou peripato, donde a designação da escola.


TEOFRASTO 

À morte de Aristóteles sucedeu-lhe na direcção da escola. 

Escreveu Os Caracteres, que representa um conjunto de trinta retratos morais, de uma forma algo cómica, apesar da argúcia do seu autor, nomeadamente, o vaidoso, o cínico, o idiota, o adulador.
Atente-se que esta obra influenciou La Bruyére (século XVIII).
Escreveu também a obra Metafísica, que reuniu múltiplas questões colocadas por Platão e por Aristóteles.

Defendeu a doutrina aristotélica da eternidade do mundo – doutrina que padecia de alguma contestação.


ESTRATÃO 

Sofreu a influência de Demócrito, não recorrendo à divindade para explicar o aparecimento do mundo.





ARISTÓTELES




Nasceu em Estagira, em 384 a.C. Foi educado na corte macedónica, em virtude de seu pai, Nicómaco, ter sido médico de Amintas II, rei da Macedónia. 

Entrou para a escola de Platão com dezoito anos, tendo sido o seu melhor discípulo, aí permanecendo durante vinte, até à morte do mestre ocorrida em 347. Depois da morte de Platão, foi suspeito de ser partidário dos Macedónios, o que o obrigou a abandonar a cidade de Atenas. Foi preceptor de Alexandre a partir do ano 343 e voltou a Atenas em 335, tendo fundado o Liceu, escola que apresentava alguma rivalidade com a Academia. 

As obras a que temos acesso, foram escritas tendo em vista o ensino.

Durante cerca de dois mil anos influenciou o pensamento ocidental, com uma autoridade quase indiscutida.

Obras:

Protréptico – É uma instigação aos estudos filosóficos.
Ética a Eudemo – Trata do problema moral.
História dos Animais – O primeiro estudo de cariz biológico, do filósofo.
Poética – Trata da tragédia e da epopeia. A parte relativa à comédia, ter-se-á perdido.
Física – Estudo da realidade natural.
Os Meteorológicos – Estudo dos fenómenos meteorológicos.
Da Geração e da Corrupção – Poderá ser considerado um verdadeiro apêndice ao Tratado do Céu.
Das Partes dos Animais 
Da Geração dos Animais
Retórica – Obra composta por três livros. Os Livros I e II são dedicados à argumentação e o III à forma do discurso.
Constituição de Atenas
Da Alma – Obra que se consagra ao estudo da alma, sua essência e faculdades.
Ética a Nicómaco – Obra composta por dez livros, designa as concepções morais.
A Metafísica – Reúne os conhecimentos de Aristóteles em sede de filosofia primeira, do estudo do Ser enquanto ser.
Organon – Obra consagrada à lógica formal. É composta por outras seis: As Categorias, Da Interpretação, Os Primeiros Analíticos, As Refutações Sofísticas, Os Segundos Analíticos, e Os Tópicos.
A Política – Estuda a forma e a possibilidade de moderar os costumes do Estado, por intermédio das instituições e da cultura.
Tratado do Céu – É nesta obra, que em quatro livros é exposta a cosmologia aristotélica.

Assemelha-se ao mestre, quando julga que nada há na natureza, seja ou não aparentemente insignificante, que não valha a pena ser investigada.

Como já se disse, foi preceptor de Alexandre, entre os treze e os dezasseis anos deste, desconhecendo-se na realidade, qual a influência que exerceu sobre o jovem discípulo – as opiniões de historiadores são diversas, inexistindo consenso.

Em 335 fundou a sua escola em Atenas e faleceu no ano de 322.

Se Platão influenciou pela sua metafísica, Aristóteles fê-lo essencialmente pela lógica, sendo certo que como ensina Russel, “quem hoje quiser aprender lógica perderá o seu tempo a ler Aristóteles ou qualquer discípulo seu.”

Tal como Platão, Aristóteles não é monoteísta, mas politeísta. Deus é um ser vivo, eterno, maximamente bom, dono da vida e da eternidade. É a Primeira Causa, a Primeira Forma ou Ideia. Autocontempla-se ininterruptamente e não tem qualquer interesse nos acontecimentos terrestres.
Deus é identificado com o primeiro motor, o motor imóvel que tudo move sem que seja movido.

Tal como Espinoza, julga que os homens devem amar Deus, mas a este não lhe é possível amar os homens.

No que ao movimento respeita, Deus é o primeiro motor, o motor imóvel e transcendente que dirige o mundo. Ordena-o, mas não o cria. Deus sendo uma forma pura e uma realidade pura, não pode mudar. Deus é forma sem matéria.

Para Aristóteles, há três tipos de substâncias:
- as sensíveis perecíveis – plantas e animais;
- as sensíveis não perecíveis – os corpos celestes;
- as não sensíveis nem perecíveis – a alma e Deus.

Logo a seguir à divindade por excelência, seguem-se as divindades dos céus e dos astros celestes. Anote-se que para Aristóteles o éter era concebido como o que mais se aproximava da divindade e do qual eram constituídos os corpos celestes. Se o mundo sublunar era composto pelos quatro elementos – água, terra, ar e fogo –, o dos astros era-o pelo éter, não estando sujeito à mudança ou à extinção. Esta doutrina foi aceite até ao século XV, acabando por ser abandonada em grande parte por obra de Nicolau de Cusa.

O seu principal argumento quanto a Deus, é o da primeira causa. O que produz o movimento tem de estar imóvel, tem de ser eterno. Deus, motor imóvel, ordenador do mundo no sentido da perfeição, é a causa primeira, mas não é o único motor, porquanto se limita a mover o primeiro céu. As restantes esferas são movidas por outras tantas divindades – ao tempo, os astrónomos identificavam um conjunto de esferas celestes susceptíveis de movimentar os astros num movimento circular.

Sendo Deus o que de mais perfeito pode existir, pensa-se a si mesmo e é pensamento do próprio pensamento, o que o faz plenamente feliz – o pensamento é o que pode existir de mais doce, é o que de mais excelente existe.

O argumento da existência de Deus, prende-se com a hierarquia da perfeição. Na existência de gradações no sentido da perfeição, terá de existir sempre algo absolutamente perfeito. Essa entidade, sumamente perfeita, só poderá ser Deus.

Interessante é a adaptação que realizou do mito da caverna. Daí retirava uma prova inequívoca da existência da divindade. Caso tivessem existido homens a viver em casas sumptuosas, rodeados por tudo o que de mais belo o homem possa conceber, mas no subsolo, sem que alguma vez tivessem contemplado o mundo natural e apenas tivessem uma ideia, ainda que ténue de Deus, seriam imediatamente convencidos da sua existência, se pudessem contemplar, ainda que por breves minutos, a natureza e a sua perfeição. 
Para Platão, o mito da caverna demonstra-nos a ilusão que é gerada pelo mundo sensível, enquanto que para o seu discípulo, dignifica e atesta a sua perfeição, bem como adianta um argumento a favor da existência de Deus.

O mundo, para Aristóteles, existiu desde sempre, e nunca deixará de existir, alicerçando-se num Acto de Pensamento que tem por essência a eternidade e a completude, aqui entendida como auto-suficiência e subsistência total. 
O mundo é perfeito, finito e eterno. É finito, porque se fosse infinito seria incompleto. Para além das estrelas fixas não há espaço. Assim, estariam erradas as teses de Anaximandro e de outros filósofos quanto à existência de inumeráveis mundos e de todos aqueles que admitiram o vazio.

A alma é objecto de estudo da sua Física, porquanto forma incorporada na matéria, vivificando-a. No entanto, não podemos dissociar tal estudo da metafísica. Tal como Platão admite que a alma ao encarnar esquece as percepções adquiridas ao longo da sua existência. Mas, regressando ao além, por efeito da morte, rememora o que aprendeu nesta vida.
Com algum pessimismo, anota que a mais preciosa condição da alma é a sua existência independente do corpo, chegando a afirmar que: “Dado que para o homem é impossível participar da natureza do que é verdadeiramente excelente, seria melhor não ter nascido, e dado que nasceu, o melhor é morrer quanto antes”.





A ACADEMIA - PLATÃO, ESPEUSIPO, XENÓCRATES, PÓLEMON, CRANTOR, HERACLIDES DO PONTO, FILIPE DE OPUNTE




Platão elegeu para dirigir a sua escola, Espeusipo, seu sobrinho. A Antiga Academia teve uma existência de vários séculos, após a morte daquele.


ESPEUSIPO 

Identificou a divindade à razão, concebendo-a como a alma que ordena o mundo.


XENÓCRATES

Influenciado pelas doutrinas pitagóricas, divinizou os elementos e afirmou a existência de inúmeros demónios, verdadeiros intermediários entre a divindade e os homens. Define a alma, como um número que se move por si – número que quererá dizer ordem.


PÓLEMON 

Considerou que a vida do homem deve ser o mais possível conforme à natureza – influência da Escola Cínica.


CRANTOR

Afirma que a dor moral nos afasta dos instintos animais.


HERACLIDES DO PONTO 

Nascido em 388 a.C., descobriu que os planetas Vénus e Mercúrio giram em torno do Sol e que a Terra gira sobre o seu próprio eixo, com uma rotação completa a cada 24 horas. 

A alma é constituída pelo éter, que é a matéria mais subtil entre as subtis.


FILIPE DE OPUNTE

Para Filipe os corpos celestes são perfeitos no seu movimento. São vivos e foi a divindade que lhes concedeu uma alma. Assim, são também deuses, passíveis de adoração.





PLATÃO




Platão, jovem aristocrata de Atenas – foi familiar de Alcibíades e de Crítias – tinha como nome verdadeiro Arístocles. O cognome deverá ter-se ficado a dever à envergadura dos seus ombros ou então à sua largueza de vistas, à sua abertura de espírito – S. Tomás de Aquino, na sua época de estudante, também foi alcunhado de “boi mudo”, por via da sua estatura e do silêncio com que assistia às aulas.
Nasceu no ano 428 a.C. e faleceu em 347. Com apenas vinte anos fez-se discípulo de Sócrates, até ao ano da sua condenação à morte (399). Teve sempre pelo mestre um enorme respeito e considerável admiração. 

Consta-se que antes de ter sido discípulo de Sócrates, seguiu as lições de Crátilo.

A injusta condenação do mestre, e a sua marcante personalidade, modelaram as especulações platónicas – no sentido da pesquisa de uma comunidade organizada onde vigorasse a justiça.
Logo após a morte de Sócrates, viajou pela bacia oriental do Mediterrâneo. De retorno a Atenas, depois de uma estadia em Siracusa, fundou no ano de 387, a Academia.


Obras:

Hípias Menor – Neste diálogo, Platão procura demonstrar que o mal apenas pode ser cometido por ignorância.
Alcibíades – Deste diálogo nasceram todos os grandes temas relacionados com a reflexão filosófica de Platão.
Íon – O tema do diálogo é a poesia e a sua criação, que é um privilégio concedido pelos deuses ao homem.
Eutifrôn – Trata de descobrir o que é a piedade. Piedoso é o que agrada aos deuses, ou é piedoso o que é do agrado dos deuses?
Lisis – Diálogo sobre a amizade.
Apologia de Sócrates – Obra de referência, respeita ao processo e à condenação de Sócrates.
Críton – Trata da justiça. Sócrates recusa-se a evadir-se. É neste diálogo que surge a célebre “Prosopopeia das Leis”.
Cármides – Diálogo sobre a verdadeira natureza da sabedoria.
Laques – Da coragem.
Protágoras – Um dos diálogos mais importantes do filósofo. Aborda as questões essenciais do seu pensamento.
Górgias – É fundamentalmente uma crítica da retórica.
Ménon – Diálogo sobre a virtude.
Menexeno – Este diálogo denuncia a arte dos oradores e dos sofistas.
O Banquete – Diálogo eloquente, que tem por motivo principal o amor.
Crátilo – Ou da justiça dos nomes.
Eutidemo – Caricatura os sofistas, tratando temas como a virtude, os meios de a ensinar e a natureza do saber.
Fédon – Narra os últimos instantes da vida de Sócrates e é um diálogo sobre a alma. Constitui com o Críton e com a Apologia, uma trilogia essencial ao conhecimento da personalidade do Sócrates histórico.
A RepúblicaOu sobre a justiça. Uma utopia, que terá nascido da indignação consequente à condenação injusta do velho Mestre. Talvez a obra mais reconhecida do filósofo.
Fedro – Trata do amor e da retórica.
Teeteto – Tem como objecto o conhecimento.
Parménides – O mais difícil dos diálogos platónicos. A Teoria das Ideias e a relação do Uno e do Múltiplo, ocupam-no em parte.
O Sofista – Aqui, Platão elabora uma crítica exaustiva aos materialistas.
O Político
As Leis – Sobre a legislação.
Carta VII – Expõe as viagens que realizou à Sicília entre 390 e 388 a.C. Expõe algumas das suas teses.
Filebo – O Bem Soberano. Prazer ou Sabedoria?
Crítias – Nesta obra é exposto o mito da Atlântida.
Hípias Maior – Do belo ou da beleza. O que é a beleza?
Timeu – Aqui, Platão explora a sua física, a sua cosmologia – lembremo-nos do demiurgo.

A República é a mais antiga de todas as utopias. A sua trave mestra é a de que os governantes devem ser filósofos, e o seu objectivo o de nos fornecer um conceito de justiça.

A causa do mundo é o demiurgo, o deus artífice criador do universo, que tem como função a difusão do bem. É incorpóreo, tem inteligência pura, alma e vida.
Deus criou o mundo, que por tal motivo não pode ser eterno. Sendo bom, desejou que toda a criação fosse boa, tanto quanto possível.

O mundo, entidade viva dotada de alma e de inteligência, não foi criado do nada, mas a partir da matéria preexistente, ou seja, de todos os elementos. Só há um mundo e não muitos, como pensavam alguns dos filósofos pré-socráticos.

Platão sustentava a existência da Ideia suprema do Bem. Na filosofia platónica não será a Ideia de Bem a do próprio Deus? Na sua perspectiva, o Bem é o autor cósmico de todas as coisas belas e correctas, pai da luz e da verdade. Temos dúvidas, mas o filósofo parece elaborar uma aproximação entre a Ideia de Bem e a de Deus.

Platão não é monoteísta, é politeísta e tradicionalista. O demiurgo ocupa o lugar mais elevado dos deuses, cada um com seus atributos e funções. Para além do Deus criador existem muitos outros deuses.

O mundo só pode existir por força da acção da divindade. Se algo se move por efeito de uma outra coisa, não pode este ser o primeiro movimento. O primeiro movimento é o que se move a si mesmo. E o que se move a si mesmo é a alma, que também move tudo o que o mundo contém.
Deus, à alma deu inteligência, e ao corpo deu uma alma. Esta foi criada antes do corpo.

A divindade preocupa-se com os homens – se não se preocupasse seria indolente e preguiçosa –, mas devemos afastar a superstição de que a podemos influenciar com ofertas: “esses põem a divindade a par dos cães que, amansados com presentes, deixam depredar os rebanhos, e abaixo dos homens comuns, que não atraiçoam a justiça aceitando presentes oferecidos com intenção delituosa”.

A morte é a separação da alma e do corpo – dualismo platónico. O corpo é visível, enquanto que a alma é invisível, assim, a alma é eterna.
A alma é imortal, tendo nascido inúmeras vezes. É invisível e não é destrutível, sendo a reminiscência uma prova da sua imortalidade. 

Renascerão os vivos dos mortos, utilizando a expressão platónica?
“As almas dos mortos existem forçosamente algures, de onde regressam à vida.” – Fédon

Se a alma se encontrar impura, contaminada pelos apetites do corpo, então, ficará prisioneira da natureza que corresponde à conduta que teve durante a vida, nomeadamente: os que se entregaram à gula e à violência, irão encarnar em corpos de asnos e de outras bestas similares, enquanto que os que optaram pela injustiça e pela rapina, encarnarão em corpos de lobos e milhafres. Apenas a alma pura do que se entregou à filosofia verdadeira, será recebido no seio da raça dos deuses.

“Sendo certo que aprender é recordar, a alma tem necessariamente de existir em qualquer outra parte antes de ser aprisionada no corpo.”- Fédon.

A psicologia em Platão é fundamentalmente espiritualista. A alma é eterna, tendo antes de estar unida ao corpo, contemplado em plenitude as Ideias. Como consequência da reminiscência reconhece essas Ideias quando encarna.
“Desde o momento em que a visão de uma coisa te levou a pensar noutra, seja ela semelhante, seja dissemelhante, é absolutamente necessário tratar-se de uma reminiscência.” – Fédon.

No Fédon, Sócrates examina se a alma depois de haver usado um grande número de corpos em múltiplas encarnações, não perecerá também ela ao deixar o último corpo, e se não é precisamente na destruição da alma que consiste a morte, já que o corpo está em constante decesso. Mas após longa pesquisa justifica a metempsicose.

Não obstante um verdadeiro filósofo não tenha medo da morte, e contrariamente ao comum dos homens até a possa desejar como libertação, não a dará a si mesmo, por ser contra a lei – aqui entendida como lei natural. Assim, o homem é prisioneiro sem direito de fuga.

No Eutifrôn, Platão pergunta-se quem é o santo: O que agrada aos deuses? Ou agrada aos deuses porque é santo? A santidade identifica-se com a virtude, que é a justiça no seu sentido mais amplo.





AS ESCOLAS SOCRÁTICAS - XENOFONTE, EUCLIDES, ANTÍSTENES, DIÓGENES, ARISTIPO, TEODORO, EGESIAS




Para além de Platão, quatro discípulos de Sócrates fundaram outras tantas escolas: Euclides, a Escola Megárica; Fédon, a Escola de Élida; Antístenes, a Escola Cínica; e Aristipo a Escola Cirenaica.
Haverá ainda que referir também como discípulos de Sócrates, Xenofonte, Ésquines, Símias e Cebes.


XENOFONTE

Deve ter nascido no ano 440. A história da filosofia deve-lhe os “Ditos Memoráveis de Sócrates”.

No Banquete, obra em forma de diálogo, inspira-se em Platão. Num banquete em casa de Cálias, Sócrates e alguns amigos expõem as suas ideias, contrapondo o amor terreno ao celeste.

Nos Memoráveis elabora a biografia de Sócrates. Aqui, Xenofonte, para além das suas próprias recordações acerca do velho Mestre, estriba-se de novo nas obras de Platão – v.g. Apologia, Fédon e Críton.

Na Apologia de Sócrates, tal como Platão, relata o processo de condenação do velho Mestre.

Refira-se que o estilo e capacidade filosófica de Xenofonte, são uma mera sombra das faculdades platónicas.


EUCLIDES

Da Escola Megárica, afirmava que o Bem é apenas um e é a Unidade, que é sempre a mesma, seja qual for o nome que lhe quisermos atribuir – Deus, Razão, ou qualquer outro.

Os megáricos foram exímios no desenvolvimento de argumentos paradoxais: 
- do sorites – tirando um grão de areia de um monte o monte não diminui (Eubúlides);
- antinomia – se afirmas que mentiste ou estás a falar verdade e então mentiste ou falas falso e então estás a dizer a verdade.

Interessante é a posição de Estílpon, que cultivava a impassibilidade, e declarava que o sábio não tem necessidade de amigos, bastando-se a si mesmo. Foi contrariado por Aníceris, da Escola Cirenaica, que julgava dever o homem basear a sua vida na amizade e no altruísmo. 


ANTÍSTENES DE ATENAS

Discípulo de Górgias e de Sócrates, cerca de vinte anos mais velho do que Platão, foi o fundador da Escola Cínica. Cínicos, são os que vivem como “cães” e não em função de convenções, preceitos sociais ou conveniências, demonstrando-o de uma forma que Sócrates provavelmente não aprovaria. 

Era senhor de uma personalidade marcadamente forte. Terá sido a morte de Sócrates que o levou a desprezar os prazeres e luxos da vida, pregando o regresso à natureza. Foi contrário a todas as convenções e poderes instituídos, tais como o Estado, a propriedade privada, a religião, o casamento. Condenou veementemente a escravatura.

O sentido da vida é a capacidade que o homem tem para atingir a felicidade, que consegue por intermédio da virtude, libertando-se dos condicionamentos e das amarras da vida social. 

Afirmou que perante as leis, muitos são os deuses, mas segundo a natureza, só um existe, só há um Deus.


DIÓGENES DE SINOPE

Foi discípulo de Antístenes, mas foi mais famoso do que o seu mestre. A palavra cínico, deriva da sua intenção de viver como um cão. 

Do filósofo restam-nos fragmentos coligidos por Diógenes Laércio e Díon de Pruse.

Levou o ensinamento de Antístenes às últimas consequências, rejeitando também todas as convenções.
Conta-se que quando Alexandre o Grande o visitou, lhe terá perguntado se desejava algo, algum favor em especial, ao que respondeu: “desejo apenas que não me tires o Sol”.

A vida dos cínicos era de simplicidade e desprezo pelos bens do mundo, prezando apenas os que lhes eram estrictamente necessários à sobrevivência.

A doutrina cínica influenciou em muito o estoicismo.


ARISTIPO

Fundador da Escola Cirenaica, ensina que o fim a atingir pelo homem não é a felicidade, mas antes o prazer, que é vivido no instante presente, sendo irrelevantes, quer o passado quer o futuro, porquanto o primeiro já não existe e o segundo é uma incógnita, desconhecendo-se se existirá ou não. Vivendo o instante, atingiu a liberdade que lhe permitia asseverar que possuía sem ser possuído.


TEODORO O ATEU

Também da Escola Cirenaica, julga que o fim a atingir pelo homem é a felicidade, que identifica com a sabedoria. Negou a existência de todos e quaisquer deuses. 


EGESIAS

Da Escola Cirenaica, julga que a felicidade é algo praticamente inatingível, atento o padecimento que acompanha a vida. O sage, mais do que buscar a felicidade deve evitar os males. Um seu escrito denominado “O suicida”, fez com que lhe atribuíssem o cognome de “advogado da morte”. 

Na sua perspectiva, a vida que é um bem para o néscio, é indiferente ao sábio.




terça-feira, 13 de janeiro de 2015

SÓCRATES - CONHECE-TE A TI MESMO




Nasceu no ano de 470 a.C. Era filho de um artesão e de uma parteira. Poderá ter sido aluno de Pródico.

É um marco decisivo na história da filosofia, não obstante desconheçamos se sabemos muito ou pouco acerca da sua vida. Tal como nos foi apresentado por Platão, exerceu uma grande influência sobre cínicos e estóicos. Se fosse possível resumir o que parece derivar dos seus ensinamentos, arriscar-nos-íamos a reduzi-los a dois:
- uma vida sem indagação ou constante investigação não merece ser vivida; e
- o autoconhecimento é o alimento da sabedoria. 

Entende a investigação filosófica como pesquisa. Uma pesquisa que não se esgota, quer em nós quer nos outros. Cícero disse que Sócrates fez com que a filosofia descesse do céu à terra.

Tinha uma personalidade extraordinariamente forte, o que fez com que Platão, seu discípulo, o comparasse à tremelga, que entorpece quem a toca. Conhecemos a sua vida, essencialmente pelos escritos de Platão, em especial:
- Pela Apologia de Sócrates – que narra o processo e a sua condenação à morte. Sócrates foi acusado por Meleto, Ânito e Lícon de ser “culpado de investigar, em excesso, os fenómenos subterrâneos e celestes, de fazer prevalecer sobre a melhor causa a pior e de ensinar aos outros esta doutrina”. No entanto, o texto da acusação, tal como se encontra descrito por Diógenes Laércio, é o seguinte: “Esta acusação jurada é de Meleto, filho de Meleto, natural do demo piteu, contra Sócrates, filho de Sofronisco, natural do demo alopecense. Sócrates é culpado de não acreditar nos deuses em que acredita a cidade e de introduzir divindades novas; é ainda culpado de corromper a juventude. Pena pedida: a morte.”
A obra apresenta-se dividida em três partes. Na primeira, Sócrates expõe a sua defesa, sem os ornatos retóricos utilizados pelos oradores da época – prescindiu inclusivamente dos serviços de um profissional afamado –, atendo-se antes à pureza das suas palavras e à verdade, exprimindo-se do modo como habitualmente o fazia. Na segunda, depois de ter sido considerado culpado, propõe a pena que julga justa ao seu caso, ou seja, alimentado como os benfeitores da cidade até ao fim dos seus dias, no Pritaneu. Tal facto deve ter sido apreciado pelos juízes como uma provocação, levando-os a proferirem uma sentença de condenação à morte. Na terceira e última parte, filosofa sobre a sua condenação e sobre a própria morte.  
- Pelo Críton – Sócrates condenado à morte, recusa-se à evasão, fundamentando tal atitude nos seus princípios, e no respeito dos seus ensinamentos filosóficos.
- E pelo Fédon – Esta obra narra os últimos momentos da sua vida, que depois de se ter negado à evasão, mantendo-se fiel aos seus princípios, discursa com serenidade, indiferente ao trágico momento que se aproxima, acerca da imortalidade da alma.

Se bem atentarmos, quer o processo quer a morte de Sócrates, constituem um acontecimento que só tem possibilidade de ser comparado ao de Jesus – não sendo este o lugar próprio para valorar as duas personalidades tendo em conta a sua atitude perante a morte e aos princípios que enformaram as suas vidas. Neste particular, leia-se o pequeno ensaio de Bertrand Russell, “Porque Não Sou Cristão”, onde afirma que em termos de sabedoria, Cristo não está tão alto como outras figuras históricas, nomeadamente Sócrates e Buda.

Para além destas obras, devemos mencionar a Carta VII, onde entre outros, Platão, enuncia os motivos que o empenharam na defesa de Sócrates, “o velho que amava”, e da sua injusta morte.

Sócrates adoptou a divisa délfica “Conhece-te a ti mesmo”, mas não limitou a actividade filosófica a si próprio, antes a estendeu aos outros, e aos inevitáveis relacionamentos nas suas múltiplas vertentes, entre ambos.

Considera que a filosofia é antes do mais uma missão divina. Não cremos, no entanto, que o Deus socrático seja o deus ou deuses dos gregos.
Durante toda a sua vida diz ter ouvido uma voz orientadora. Seria a voz da sua consciência ou a do seu Deus?
“Ao longo de toda a minha vida, a voz divina que me é familiar nunca deixou de fazer-se ouvir, mesmo a propósito de actos de menor importância, para me deter se eu estivesse para cometer alguma coisa de mal.” – Platão, Apologia de Sócrates

O que está para além da morte é uma incógnita, um mistério metafísico. Sócrates tinha a esperança da existência de algo para além dela, que segundo a tradição e as crenças estabelecidas, seria muito melhor para os bons do que para os maus. Se realmente a morte nos libertasse de tudo, que boa sorte seria para os maus, ao morrerem, verem-se desembaraçados quer do corpo quer do mal e da sua maldade, ao mesmo tempo que da alma – veja-se de Platão, o Fédon.
“(...) recear a morte não é senão cuidar-se sábio quando se não é, pois será crer que se sabe o que não se sabe. Ninguém, efectivamente, sabe o que é a morte, nem se ela será justamente para o homem o maior dos bens, receando-a como se fosse coisa certa ser ela o maior dos males.” – Apologia de Sócrates, Platão.

Dirigindo-se aos juizes que o absolveram no processo em que foi condenado à morte, Sócrates terá dito:
“De duas coisas, uma: ou aquele que morre fica reduzido a nada e não tem nenhuma consciência seja do que for, ou, de acordo com o que se diz, a morte é uma mudança, uma transmigração da alma deste lugar em que nos encontramos para um outro lugar. Se a morte é a extinção de todo o sentimento e se parece com um daqueles sonos em que nada vemos, mesmo em sonho, morrer é então um maravilhoso lucro (...)
Por outro lado, se a morte for como uma passagem de aqui debaixo para um outro lugar e se for verdade, como se diz, que todos os mortos aí se encontrarão reunidos, poderemos, ó juizes, imaginar um maior bem?” – Apologia de Sócrates, Platão.

Despedindo-se do tribunal que o condenou, disse:
“Mas chegou a hora de nos irmos, eu para morrer, vós para viver. Quem de nós tem a melhor parte, ninguém sabe, excepto o deus.”

O exame constante de si e dos outros justificou o sentido que sempre procurou dar à sua vida. Condenado à morte instou os juizes a aceitarem a morte com esperança, já que certo é o facto de que não há mal possível para o homem de bem, nem durante a sua curta vida nem depois de sua morte. Encarou a sua condenação com uma doçura quase inconcebível pelo comum dos mortais, reagindo-lhe como os cisnes lhe reagem, que sentindo aproximar-se a sua hora, cantam mais melodiosamente que nunca, pois sentem uma felicidade indescritível por irem encontrar-se com o deus que servem – Platão, Fédon.

Manteve-se sempre fiel aos seus princípios, não anuindo na fuga que os amigos lhe propuseram. A aceitação da condenação, da pena de morte, é o testemunho, o exemplo de tudo o que vinha ensinando.
Na perspectiva de se poder evadir, evitando a morte, disse dando voz às Leis:
“Vamos, Sócrates, escuta-nos, a nós que te sustentámos, e não ponhas os teus filhos, a tua vida, nem seja o que for acima da justiça, a fim de que, chegado ao Hades, possas declarar tudo isso em tua defesa aos que governam nesse lugar.
(...)
Se partires hoje para o outro mundo, partirás condenado injustamente, não por nós, as leis, mas pelos homens.
Se ao invés, te evadires depois de haveres tão vilmente respondido à justiça com a injustiça, ao mal com o mal, (...) então ficaremos iradas contigo o resto da tua vida.
E, no outro mundo, as nossas irmãs, as leis do Hades, não te irão receber favoravelmente (...). – Platão, Críton

Antes da execução, exortou os amigos a cuidarem de si mesmos. Seguidamente, pegou na taça de veneno com perfeita serenidade e, sem tremer ou vacilar, levou-a aos lábios esvaziando-a na totalidade, com uma facilidade e calma perfeitas.
Um dos seus amigos, escondeu a cabeça e chorou, não a infelicidade de Sócrates, mas a sua, ao pensar no amigo que perdia. Este facto, confirma a asserção de que os mortos não choram, mas são os vivos que se choram a si mesmos.

As suas últimas palavras foram:
“Críton, devemos um galo a Asclépio. Não te esqueças de o pagar!” – Platão, Fédon. 
Na época pagava-se um galo a Asclépio pela cura de uma doença, e Sócrates curara-se da doença da vida.

Após longa argumentação, Sócrates, no diálogo Fédon, conclui pela imortalidade da alma e pela sua imperecibilidade.  A alma impura tem o destino de errar sozinha, na maior solidão, enquanto que a pura tem os deuses por guias. A alma que é ornamentada com a temperança, a justiça, a coragem, a liberdade e a verdade, parte para o Hades, onde receberá como consequência a suprema recompensa.